45 – Particularidades do espaço sagrado no Baixo Alentejo interior

Desde sempre que as diferentes civilizações que se têm sucedido na orla mediterrânica (e não só, mas para o caso situamos esta reflexão no âmbito deste espaço), têm claramente identificado em cada uma das suas principais povoações o seu espaço sagrado, em relação ao espaço profano em que vivem e trabalham.

E esse espaço sagrado é geralmente mantido, ao longo do devir histórico, pelos sucessivos povos dominantes, por mais diferentes que sejam entre si.

Na Península Ibérica, e no território histórico de Portugal, identificados os diversos povos que por cá passaram, principalmente no Sul (Fenícios, Gregos, Cartagineses, Romanos, Germanos, Árabes, ou depois Cristãos), todos eles garantiram nas suas principais povoações o seu espaço sagrado, central e dominante, onde edificaram os principais templos, mesquitas e/ou igrejas, alterando ou adaptando as estruturas preexistentes ao culto de cada um. Portanto, temos em comum o espaço de implantação dos edifícios de culto, e muitas vezes o mesmo edifício que foi adaptado a religiões diferentes. A profundidade desta adaptação decorria muitas vezes da ferocidade da conquista e das diferenças essenciais das religiões em substituição. Nas povoações mais antigas do sul de Portugal, é comum encontrar elementos da antigas mesquitas na base das igrejas medievais, e no seu subsolo, elementos romanos de iniciais construções religiosas.

Em simultâneo com estas substituições no espaço sagrado, também assistimos a mudanças no espaço profano central: cada povo que se torna dominante tende a expulsar as elites do anterior da zona central das cidades, e relegá-las para a periferia, onde se inserem em bairros étnicos (assim nascem na idade média as morarias e judiarias, por exemplo).

Por esta ordem de ideias, é tradição nas povoações cristãs, encontrar as suas principais igrejas no centro local, a que se associava historicamente o cemitério (o campo santo), também ele integrante do espaço sagrado de cada povoado. Até ao séc. XIX, o local habitual de enterramento dos fiéis cristãos era nas igrejas ou nos adros das mesmas. Só nos meados desse século, por motivos de saúde pública, é que pelo governo de Costa Cabral (decreto de 28 de setembro de 1844), se proibiu o enterramento nestas circunstâncias, e impondo os cemitérios longe das igrejas e da povoações, conhecendo-se as reações que a decisão provocou, servindo de rastilho a um importante levantamento popular no norte do país – a Revolta da Maria da Fonte, em 1846.

Apesar desta reação, ao longo do tempo foi-se interiorizando a justiça da decisão, e os cemitérios passaram mesmo a localizar-se na periferia das povoações, o que não quer dizer que hoje, face ao crescimento urbanístico, muitos deles não estejam novamente integrados na paisagem urbana.

Mas neste contexto, gostaria de deixar aqui aos meus leitores uma nota de reflexão sobre a localização das igrejas e cemitérios, ainda nos nossos dias, em algumas aldeias e vilas do Baixo Alentejo interior: ao contrário da generalidade das povoações do resto do país, ou mesmo do Alentejo, ali é frequente vermos igrejas e cemitérios juntos e longe do centro das localidades. E o longe pode ser representado por várias centenas de metros, ou mesmo alguns quilómetros. Este afastamento em bloco de igrejas e cemitérios, portanto, não tem nada a ver com a legislação de Costa Cabral, que se referia só a estes últimos, historicamente é anterior a isso mesmo, é a delimitação do espaço sagrado da aldeia, longe da mesma. Se quiserem ir à missa ou a um funeral, os fiéis deslocam-se a uma distância significativa das suas casas, para assistir a qualquer destas formas de culto cristão.

Para concretizar esta particularidade regional, identifico, a título de exemplo, algumas aldeias ou vilas dos concelhos de Almodôvar, Mértola, Castro Verde, Serpa, onde isto se verifica: S. Pedro de Sólis, S. Sebastião dos Carros, S. João dos Caldeireiros e S. Miguel do Pinheiro (Mértola); Santa Cruz (Almodôvar); S. Bárbara de Padrões (Castro Verde); Vila Nova de S. Bento (Serpa).

Não tenho a chave explicativa ou a origem temporal desta tradição regional, que não se verifica genericamente nas sub-regiões envolventes: o resto do Alentejo, ou mesmo o nordeste algarvio adjacente também foram sujeitos às mesmas, ou semelhantes, orientações e vivências, e não tiveram a mesma solução urbanística.

Mas penso que a explicação não deixará de ser encontrada em argumentos de índole religiosa ou sociológica, entroncando na mentalidade religiosa da população local, produto de uma evolução histórica de vários povos que por ali passaram, e onde se fixou uma atitude específica perante o fenómeno religioso. Na verdade, o alentejano (e as populações do sul, em geral), manifesta, no seu dia-a-dia uma certa indiferença perante o culto religioso e os respetivos ministros locais. De uma maneira geral, assiste de forma empenhada na igreja às cerimónias sociais e familiares mais relevantes – batismos, casamentos e funerais. Tem uma vivência religiosa pessoal e interior, segue as normas da moral cristã, mas não é, de uma maneira geral, aquilo a que se chama católico praticante. Talvez possamos dizer que a metade feminina da população mais velha será, ainda assim, aquela que mais assume a sua vivência religiosa. Por outro lado, os próprios ministros da igreja (párocos locais e bispos), vindos geralmente de fora, onde a vivência religiosas é mais intensa, parecem não compreender esta mentalidade local, não interagindo com os seus fiéis na base da sua vida quotidiana e maneira de ser/pensar. Identificam a sua tarefa como em território de missão, impondo uma teoria abstrata e longe daquilo que os seus ouvintes conhecem e precisam de ouvir, contribuindo assim também para a indiferença e afastamento da sua comunidade.

Poderá ser por aqui que se normalizou o afastamento do espaço sagrado em relação ao espaço profano (residencial e laboral) das aldeias?

Como já tem acontecido, não sabendo o porquê, deixo aos meus leitores a possibilidade de refletirem e eventualmente me indicarem alguma justificação de que tenham conhecimento.

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