20. A narrativa da tomada de Loulé e Aljezur aos Mouros*

Para concluir estas transcrições da Crónica apresentamos hoje o que dela consta sobre a tomada de Loulé e Aljezur.

Chamo a atenção novamente para alguma falta de rigor espacio-temporal nas descrições, onde o autor, que escreve bastantes anos depois dos factos, parece mais preocupado com o elogio à ação do Mestre de Santiago, D. Paio Peres Correia, do que com outros protagonistas, nomeadamente o Rei D. Afonso III, e com a realidade dos factos. Enfim, por aqui passa a diferença entre a crónica medieval e a verdadeira História.

“Depois que El-Rei tomou a vila de Farão, logo dali a poucos dias partiu o Mestre com sua companha e foi-se lançar sobre Loulé, e não esteve o cerco muito sobre ele que logo o não tomassem e porque o Mestre corria alguma gente nas pelejas e combates das vilas, disse-lhe um dia El-Rei, falando com ele: Mestre! Muito me pesa pelos cavaleiros que vos morreram na conquista destes lugares, porque eram todos mui estremados homens! Senhor, disse o Mestre. Não tomeis dor pelos mortos, porque morreram no serviço de Deus e salvação das suas almas! E logo o Mestre partiu de Loulé e foi-se lançar sobre Aljezur; e quando os Mouros souberam que Farão e Loulé e os outros lugares eram tomados, deram-se logo ao Mestre com a condição que se deu Farão; e o Mestre, pelo cansaço que havia recebido, ele e as suas gentes, nos outros lugares, aprouve-lhe com isto e de se tomar logo Aljezur, como vos dissemos; e Deus lhe deu todos estes vencimentos, porque sabia quão de vontade o Mestre era no seu santo serviço”.

Grafia atualizada.

*Segundo a “Crónica da Conquista do Algarve”, de autor ainda não completamente identificado, provavelmente do séc. XIV, publicada em 1792, e republicada, com comentários e notas, por José Pedro Machado – Separata dos Anais do Município – VIII – Faro 1979.

Publicado em
Categorizado como História

19. A narrativa da conquista de Faro- 1249*

(…) E então que El-Rei D. Afonso III recebeu estas cartas de seu sogro que a Rainha sua mulher lhe trouxe, mandou logo aparelhar suas gentes e foi-se logo com grande pressa ao Algarve, e foi por Beja e daí a Almodôvar, do campo de Ourique, e passou a serra pelas Cortiçadas, e encaminhou direito a Farão do senhorio do miramolim rei de Marrocos; e tinha a vila por ele um alcaide que tinha o nome de Aloandre, e estava aí um almoxarife de El-Rei que tinha o nome de Alcabrarão; estes haviam grande corrida de gentes e mantimentos porque dentro do alcácer estava uma fusta [barco] por um arco grande que era feito no muro e tiravam aquela fusta cada vez que queriam, e mandavam recado a seu Rei Miramolim, e traziam nelas gentes e todas as coisas que tinham necessidade; e porque o lugar era bem fortalecido de armas e de tudo o que lhe cumpria, estavam os Mouros muito esforçados de maneira que prezavam muito pouco os Cristãos.

Quando o Mestre D. Paio Peres Correia1, que era vassalo de El-Rei D. Afonso, soube que ia lá, foi aguardá-lo entre Loulé e Almodôvar, e na vila de Salir e ali se viu El-Rei com ele, e as gentes todas juntas foram cercar Farão e puseram o arraial sobre ele, e repartiram seus combates desta maneira:

– o combate de El-Rei D. Afonso foi no castelo, e um lanço da vila até uma porta que agora chamamos das freiras;

– e o combate do Mestre, deste lanço até à porta da vila;

– e mandou El-Rei um Rico-homem, que tinha nome D. Pero Escrenho, em outro lanço do muro até uma torre que depois chamaram de João de Aboim;

– e este João de Aboim tinha outro lanço, da torre que depois chamaram de seu nome até ao combate do alcácer de El-Rei.

Fora estas capitanias, eram aí outros com eles, a saber: D. Fernão Lopes, prior do Hospital; o Mestre de Avis; o Chanceler- mor D. João de Unhão; Mem Soares e João Soares; e Egas Lourenço. E desta maneira tinha El-Rei combatida a vila muito fortemente, de dia e de noite, e mui poucas vezes lhe davam lugar; e tomou-lhe El-Rei o mar com a frota e atravessou-lhe no canal do rio navios grossos muito bem armados e ancorados da parte de fora, contra o mar, porque se algumas galés de mouros viessem que lhe não pudessem fazer mal e lhes fosse embargada a parte do rio; e assim ficou o lugar todo cercado ao redor.

Quando os Mouros viram que o porto de mar assim era tomado e que El-Rei assim os afincava tanto de cada parte,  posto que bem se defendessem, entenderam que lhes não havia de servir de nada; e andando em acordo, falou El-Rei um dia com o alcaide Aloandre e com o almoxarife Alcabrarão, que eram os maiores do lugar, como já vos dissemos; e foi El-Rei com eles falando até que se acolheram dentro do alcácer, e levando os que quis, que seriam até dez cavaleiros, e o castelo foi livre dos mouros e buscado todo pelos cavaleiros de El-Rei; e não ficou com eles gente nenhuma, salvo estes dois mouros que deixámos dito.

E isto não fez El-Rei saber ao Mestre nem aos outros que tinham os combates; e estes, não sabendo disto, foi El-Rei achado menos e houvera de ser grande mal, e por El-Rei não faltar do que tinha prometido, foram notícias ao Mestre, e a outros filhos de algo do arraial, que cuidaram que os mouros do castelo tinham feito algum dano a El-Rei, e que o mataram ou o prenderam; e por isso, levantaram um ruído tão grande, que por força e a mal de seu grado, os mouros não lhes atirando setas nem pedras, os Cristãos passaram a cava e a barra e juntaram-se com um muro; e a gente do Mestre carregava lenha à porta da vila para lhe porem fogo, e por esta razão padeceriam muitos dos Cristãos.

E quando El-Rei viu aquele ruído admirou-se muito do que podia ser, e como soube o que era, saltou em cima de uma torre, e mostrou as chaves na mão, que já tinha o castelo, e mandou dizer ao Mestre e aos outros que estivessem quietos e se mantivessem fora, que já era em acordo com os Mouros.

O mouro Alcabrarão saiu do castelo e então mandou El-Rei apregoar pelo arraial que ninguém fizesse mal a mouro ainda que andasse fora entre eles, nem entrassem pelas portas da vila, ainda que abertas as achassem, salvo o Mestre e os outros capitães que entrassem dentro com aqueles que quisessem, e estivessem sobre as portas do combate que cada um tinha.

E o acordo que El-Rei fez com os Mouros foi desta maneira: que eles lhe fizessem aquele mesmo foro que em todas as coisas faziam ao seu rei, e que eles houvessem todas as suas casas, vinhas e herdades da mesma maneira, e que El-Rei os defendesse e amparasse, assim dos Mouros como de outras quaisquer gentes que mal lhes fizessem; e os que quisessem ir para alguns lugares de mouros, que se fossem livremente com todas as coisas; e que os cavaleiros mouros ficassem por seus vassalos e que andassem com El-Rei quando lhe cumprisse, e ele que lhes fizesse bem e mercês.

Desta maneira houve El-Rei a vila de Farão no mês de Janeiro da era de mil e duzentos e trinta e oito anos2.

______________________

1 Mestre da ordem Militar de Santiago da Espada, que se notabilizou nas conquistas das vilas algarvias

2 Mais uma vez a Crónica, escrita muitas décadas depois dos factos, não é precisa nas datas e locais: Faro foi tomada aos Mouros em 1249.

Grafia atualizada.

*Segundo a “Crónica da Conquista do Algarve”, de autor ainda não completamente identificado, provavelmente do séc. XIV, publicada em 1792, e republicada, com comentários e notas, por José Pedro Machado – Separata dos Anais do Município – VIII – Faro 1979.

Publicado em
Categorizado como História

18. A narrativa da segunda conquista de Silves*

VII _ Como o Mestre se lançou sobre Silves enquanto o seu rei Ala Mafon estava fora, e como pelejou com ele e lhe tomou o lugar

Desta maneira que haveis ouvido, aprouve a Deus de dar a vila de Tavira em poder aos Cristãos, e depois que a deixou o Mestre, seguro de tudo o que lhe cumpria, foi a Salir e tomou-a por força, e então foi cercar Paderna, que é um castelo forte e muito bom, de grande comarca em redor, entre Albufeira e a serra, e estando sobre ele, mandou gente ao termo de Silves, que fossem tomar a torre de Estômbar, que dantes fora sua, e foram lá e houveram-na outra vez.

E quando Ala Mafon1, seu rei deles, que estava em Silves, soube como aquelas companhas ali eram, saiu a eles do lugar com a mais companhia que pode, porque lhe disseram que estava ali o Mestre com todo o seu poder; e o Mestre como soube que era fora, alçou-se logo de sobre Paderna e veio-se lançar sobre Silves. Ala Mafon, indo para a torre de Estômbar, achou notícias que não era ali o Mestre, e que não estava ali mais gente que aquela que tomara a torre e a defendia, porém quis lá chegar, e logo muito à pressa se tornou para a vila, e logo se temeu do que era, e o Mestre lançou-lhe uma cilada, que lhe tinha já tomado as portas e as gentes repartidas por elas; e el-rei Ala Mafon, quando isto viu, querendo entrar por força pela porta que chamam de Azóia, porque era lugar desembargado, encontrou-se ali com o Mestre que tinha a guarda dela. E el-rei mouro vinha com todos os seus juntos e ali se viu o Mestre com grande trabalho com eles, e foi a peleja [luta] com eles em um campo fora junto com a vila, onde agora está uma igreja que se chama Santa Maria dos Mártires e os mouros fizeram muito por retomar a porta, e se meteram sobre a torre da Azóia, porque é bem saída e tem marcos para fora, mas isto não lhes serviu de nada, porque os Cristãos andavam em volta com eles, e assim entraram  com eles pela porta da vila e ali foi a peleja tão grande de maneira que mais Cristãos morreram ali,  que em outro lugar que se no Algarve tomasse. E el-rei mouro andou pela vila em redor e quis-se acolher pelo postigo da traição a um alcácer em que ele morava, e achou o postigo embargado, foi para se acolher por outra porta da vila e achou-a fechada, e então de desespero, deu de esporas ao cavalo e fugiu, e passando por um pego afogou-se ali, e o acharam depois morto2, e agora chamam  àquele lugar o pego de Ala Mafon; dos mouros que ficaram no alcácer e trabalharam para o defender quanto podiam, o Mestre não os quis combater [dizendo-lhes] que seguros viessem à vila, se quisessem, e aproveitassem suas herdades, e lhe [re]conhecessem aquele senhorio que conheciam ao rei mouro, e assim fez aos outros lugares que tomou, e não combatiam os alcáceres em que se os mouros recolhiam, mas segurava-os e que vivessem nas terras por serem aquelas aproveitadas, e depois foi ali edificada uma igreja catedral e foi feita a cidade. Então se tornou o Mestre a Paderna, que antes tivera cercada, e tomou a vila e o castelo por força, e não se combateram com eles, matando os mouros por dois cavaleiros freires que ali mataram. Esta vila de Paderna se mudou naquele lugar que agora chamam Albufeira, porém ainda a outra está habitada e defendida com seu castelo e uma cisterna mui boa dentro”.

___________________

1 Ibne Mahfot, ou Mafon, último rei de Silves e Niebla.

2  Situação inverosímil, porquanto Ibne Mahfot teria ido para Sevilha depois da conquista do Algarve, onde se rendeu ao Rei de Castela, e terá ficado na sua corte.

Grafia atualizada.

*Segundo a “Crónica da Conquista do Algarve”, de autor ainda não completamente identificado, provavelmente do séc. XIV, publicada em 1792, e republicada, com comentários e notas, por José Pedro Machado – Separata dos Anais do Município – VIII – Faro 1979.

Publicado em
Categorizado como História