23.Breve história de Silves

Conhecem-se vestígios materiais da presença humana na zona de Silves desde tempos remotos da História da humanidade. A sua localização geográfica, à beira de um rio navegável até há pouco tempo, a sua relativa proximidade do mar e das rotas marítimas de entrada e saída do Mediterrâneo, a imensa zona interior circundante, fizeram deste povoado um centro de interesse para muitos homens e diversas civilizações.

Estão conhecidas e identificadas, e algumas pedagogicamente guardadas no seu Museu Arqueológico, peças arqueológicas de diversas civilizações desde a Pré- História até à atualidade, passando pelo Neolítico, Idade dos Metais, presença s de Fenícios, Gregos e cartagineses, ocupação romana, pela efémera presença visigótica, pela mais vincada ocupação muçulmana e, por último, pelo domínio e integração no território e na História de Portugal.

Pelo rio Arade subiam desde a sua foz (na atual Portimão), embarcações de todos os povos mediterrânicos que, especialmente pelo comércio, aportavam em todas as costas conhecidas, e em que a Península Ibérica desempenhava um papel importantíssimo devido ao valor dos seus variados produtos minerais. Tal como pelos outros rios da região – Tejo, Sado, Guadiana, Guadalquivir – os barcos aventuravam-se pelo interior até onde era possível, e aí estabeleciam feitorias para a troca dos produtos regionais pelos exóticos. Assim o fizeram em meados do século I a. C. os Fenícios, Gregos e Cartagineses que, não tendo uma presença de ocupação, aqui deixaram vestígios especialmente de atividades comerciais como moedas, vasilhame cerâmico ou de vidro, restos de embarcações, adornos, armas e utensílios de uso quotidiano.

Com aqueles conviveram povos aqui há mais tempo radicados, eventualmente autóctones – os Cónios ou Tartéssicos – que constituíam a civilização ibérica do sudoeste da península, de cujo esplendor nos deixaram relatos escritos alguns viajantes mediterrânicos como Plínio e Estrabão.

Mais duradoura foi a presença e ocupação romanas, entre fins do séc. III a. C e os finais do séc. V d. C. Controlando quase toda a península, foi especialmente o Sul a zona que foi mais romanizada, a todos os níveis: económico, politico-administrativo, social e cultural, como também ainda hoje se pode ver nos vestígios da época. Parece ter sido pacífica a adaptação ao regime romano na região sudoeste peninsular e nomeadamente no atual Algarve português, onde as formas de vida e economia seriam semelhantes.

Dos conturbados e relativamente curtos tempos da presença dos Visigodos e/ou Suevos e Vândalos, restou muito menos para mostrar às gerações atuais.

Mas, sem sombra de dúvida, o passado mais brilhante de Silves foi no período muçulmano, entre os séculos VIII e XIII. Inicialmente dependente, como toda a península, do Califado de Bagdad, passou a depender politicamente de Córdova quando ali se instalou um novo califado em 755, entre os séc. VIII, IX e X. Durante os séculos XI e XII, as diversas cidades da época e da região, como Sevilha, Niebla, Silves, Mértola e Badajoz, alternando com longos períodos de unificação – Almorávidas e Almóadas – aventuraram-se em governos autónomos e muitas vezes rivais entre si, que retiraram força política e militar ao Al-Andaluz e assim proporcionara, o avanço decisivo das tropas e do domínio cristão no sul da península através da chamada Reconquista Cristã. Não tendo a grandeza e o esplendor das grandes cidades árabes da península, como Córdova, Sevilha e Granada, no entanto, Silves (então designada Chelb) era uma notável povoação, sob todos os pontos de vista, sem dúvida a mais importante da sua região. Nela se desenvolveram indústrias, a agricultura de regadio, a pesca, a exploração mineira no interior, e também as artes e a ciência. Comparativamente com a zona cristianizada da época, o Sul islâmico, nomeadamente desde o seu glorioso séc. X era bastante mais desenvolvido e culturalmente mais aberto.

Como vimos atrás, foi o processo de Reconquista que trouxe Silves para o território cristão e português. Não foi de forma rápida nem pacífica. Conquistada uma primeira vez por D. Sancho I em 1189, no mesmo ano de Alvor, com a participação direta de Cruzados da 3ª Cruzada que estavam em trânsito para a Palestina, e que foram aliciados pelo rei de Portugal, viria a cair na posse dos Árabes logo em 1191. A partir desta última data estava o Al-Andaluz unificado sob forte poder Almóada que viria a dominar até 1212 na península. Um dos cruzados participantes na conquista de 1189 relatou-nos as estratégias utilizadas durante o cerco de várias semanas, durante o verão, a violência de que se revestiu o ataque intramuros, e o desgosto em relação à forma como os portugueses dividiram o saque com os mesmos cruzados.

Mas a tendência para empurrar para sul a presença muçulmana era inapelável e, em meados do século XIII, em 1249, Silves passava definitivamente a fazer parte de Portugal, sob as forças combinadas do rei D. Afonso III e do mestre de Santiago, D. Paio Peres Correia que, por aqueles anos, conquistaram com ou sem violência, todos os castelos e povoações do barlavento algarvio e que assim se juntaram ao extremo sotaventino já conquistado no tempo de D. Sancho II pela ação direta daquele mestre e dois seus monges –soldados.

O processo de integração oficial e jurídica no território português não foi fácil, porque ocorreu uma demorada querela entre os Reinos de Castela e Leão e Portugal pela sua soberania, que só veio a ser definitivamente resolvido em 1267, pelo Tratado de Badajoz. Isso explica a demora entre a conquista e a outorga do foral

Recebeu carta de foral em agosto de 1266, como povoação principal do Algarve, num documento baseado no foral de Lisboa de 1179 e que seria ainda o modelo dos forais de Faro, Loulé e Tavira, também emitidos na mesma data. Aplicava as mesmas taxas e coimas pelos crimes cometidos, mas apresenta diversas alterações específicas, nomeadamente identificando os bens que o rei reservava para o seu poder, tais como fornos de pão, salinas, o sal, as taxas sobre o vinho vendido, os moinhos do rio Arade, todos os reguengos de Lagoa e Arrochela, figueirais dos antigos reis mouros, açougues, banhos e fangas, a pesca da baleia e o padroado das igrejas.

Também em 1269 recebeu, tal como aquelas outras povoações algarvias citadas, o chamado foral dos Mouros Forros, que garantia a segurança dos mouros que por cá ficaram depois da reconquista.

Outro problema derivado desta quezília foi a nomeação do bispo de Silves, porque, entretanto, justificava-se a recriação desse bispado (onde antigamente houvera o bispado de Ossónoba – Faro), e era preciso definir em que província metropolitana o bispado devia ser integrado (Braga, por Portugal ou Sevilha por Castela). Ainda ficou sufragânea da arquidiocese de Sevilha até 1394, data em que passou a depender da recém-criada arquidiocese de Lisboa.

Pela mesma altura começavam-se a reconstruir as igrejas das principais povoações algarvias, recuperando as instalações das antigas mesquitas maiores muçulmanas, e das quais a de Silves deveria ser mais majestosa, por se tratar da catedral (igreja onde está a cadeira do bispo).

O fim do domínio muçulmano na região marcou o términus de um longo período de desenvolvimento económico e cultural, ainda que de alguma anarquia política, que ligava ambos os lados do estreito de Gibraltar num amplo contexto cultural e civilizacional.

Silves, no entanto, sob o domínio cristão, continuaria a ser a mais importante povoação do Algarve, mantendo a categoria de cidade e sede de bispado até 1577. A sua Sé Catedral era digna da sua importância e da cidade. Notável e vasto templo de estrutura gótica em grés regional, com grandes colunas e pórtico ogival, com o exterior hoje já marcado pelas intervenções posteriores, nomeadamente após o terramoto de 1755. Forma com o castelo, construído na mesma pedra, o mais imponente núcleo de património histórico-arquitetónico do Algarve. A estes se acrescenta, no séc. XVI, a janela manuelina da Misericórdia e o cruzeiro tardo-gótico-manuelino conhecido por Cruz de Portugal.

O século XVI, porém, mudaria o curso da história de Silves. Em 1577 o bispo de Silves, D. Jerónimo Osório, um grande vulto do humanismo português, mudou a sede da diocese de Silves para Faro, alegadamente por causa dos ares insalubres da cidade, representando esse gesto já um símbolo da perda de importância e influência relativa que Silves estava a sofrer ao longo do tempo. Devido ao assoreamento do rio Arade, e da diminuição da sua navegabilidade, chave da sua dinâmica económica, Silves foi-se tornando uma povoação de interior, cedendo lugar e importância a Portimão e entrando numa prolongada letargia. Depois de uma pouco conseguida experiência industrial na área corticeira, pode-se dizer que são já das últimas décadas um notório rejuvenescimento e uma acentuada dinâmica de desenvolvimento local, que se baseiam no aproveitamento turístico e nas insuperáveis condições para o cultivo dos citrinos, factos que são visíveis por quem hoje a visita.

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22. Breve História de Loulé

No espaço que compõe o território do concelho de Loulé encontramos vestígios da presença humana desde os tempos da pré-história, em todos os períodos marcantes da história de Humanidade (que se pode perfeitamente comprovar na coleção do Museu Municipal da cidade e como se viu na excecional exposição que o Museu Nacional de Arqueologia, em Lisboa, teve patente ao público há poucos anos). Temos objetos em pedra do Paleolítico; outros mais diversificados do Neolítico (cerâmica, pedras de mós e outros utensílios para o uso de populações que se estavam a sedentarizar); menires, antas e estelas com a célebre escrita do Sudoeste (que valorizam sobremaneira a história do interior do nosso concelho, e que individualizam esta região em relação a toda a Península Ibérica e Europa), da época em que se trabalhavam os primeiros metais; objetos e estruturas de habitações dos períodos romano e muçulmano, que por cá se mantiveram vários séculos; utensílios, ferramentas, construção civil e militar, igrejas e conventos, documentação de vários tipos, objetos vários dos períodos medieval e moderno, até aos nossos dias.  

Mas a fundação da povoação de Loulé, na sua localização atual, não é tão antiga como os períodos mais remotos atrás citados. Tanto quanto se conhece hoje, Loulé teria sido uma povoação fundada no período muçulmano, uma alcaria com o nome al-Ulyã, implantada algures entre o séc. VIII e IX, de que derivaria o nome de Loulé, e assim se desenvolveu enquanto centro urbano de média dimensão ao longo do período em que os denominados “Mouros” por cá foram dominantes (entre os séculos VIII e XIII). Há também a versão lendária do nome da vila, atribuída ao rei de Leão Fernando I, o Magno, (1037-1065) que teria dito que a árvore que se via sobre as suas muralhas era um loureiro (“Laurus est”), de onde teria derivado o nome de Loulé. Mas essa é a lenda, com certeza menos provável que a designação muçulmana.

Durante a fase muçulmana, principalmente no período almóada (séc.s XII e XIII), Loulé não teria a importância de Silves, a grande cidade árabe do Al Garb, no Al Andaluz, mas rivalizava na sua dimensão e importância económica com Faro e Tavira, num segundo nível de povoações na região.

A sua tomada aos Mouros teria sido provavelmente na primavera de 1249, talvez ainda em março, logo a seguir à tomada de Faro que também é apresentada como tomada nesse mês. A original invocação da sua principal igreja a S. Clemente tem feito alguns pensarem que teria sido conquistada no dia deste santo (23 de novembro), mas é uma situação pouco plausível, porque muito distante da data da conquista de Faro (março de 1249) e, sabe-se também, que os dois lideres da conquista de Faro, depois dessa conquista se afastaram da região: o Mestre de Santiago (D. Paio Peres Correia) já estava em Alcácer do Sal nesse mesmo mês de março, e D. Afonso III estava no Crato em maio seguinte.

A importância semelhante destas povoações algarvias é comprovada pela atribuição simultânea das cartas de foral em 1266, pelo rei D. Afonso III, depois da reconquista em 1249 e da resolução do contencioso com o rei de Castela (Fernando III e Afonso X) sobre o respetivo domínio, que só terminou com o acordo de 1263 e confirmado definitivamente pelo Tratado de Badajoz, de 1267. Igualmente às mesmas povoações foi entregue por D. Afonso III o chamado foral dos Mouros Forros (1269), que garantia a segurança dos mouros que tinham ficado por cá depois da reconquista. Da mesma época é o início da construção das igrejas principais destas povoações, na generalidade dos casos reconstruídas ou adaptadas a partir das antigas mesquitas maiores da era muçulmana (no caso de Loulé a igreja de S. Clemente, em estilo gótico paroquial).

Do foral de Loulé também fica identificado o reguengo de Quarteira que o rei reservou para si e seus sucessores, e que D. João I veio a trocar com Gonçalo Nunes Barreto (fidalgo descendente de figuras importantes das cortes de D. Sancho II e D. Afonso III, cujo ramo de família se teria radicado em Loulé depois da reconquista), em 1413, recebendo o senhorio de Cernache-Coimbra, e dando assim origem ao Morgado de Quarteira (zona da atual Vilamoura), que duraria por muitos séculos.

É provável que a povoação tenha sofrido alguma quebra com o fim do domínio árabe, naturalmente com o estrangulamento das linhas comerciais entre o litoral sul do Garb-Al-Andaluz e o Norte de África. Durante muitos séculos o comércio inter-regional fora um elemento de desenvolvimento económico que seria afetado com a conquista cristã e a distância e dificuldades de comunicação com o Centro e Norte de Portugal não se traduziriam no imediato numa substituição de mercado.

No entanto, a pouco e pouco, ao longo do período medieval cristão, Loulé foi-se estruturando como um importante centro económico da região, essencialmente baseado na produção agrícola (fruta, vinho, cereais, frutos secos, azeite) na criação de gado, no artesanato e na pesca, cujos produtos serviam para o consumo interno, mas também para o abastecimento de outras povoações da região e até para a exportação, como é o caso dos figos secos e passas de uva. Deste período, especialmente importante foi a época da revolução de 1383-85, em que Loulé vincadamente assumiu o lado do Mestre de Avis, contra os interesses de D. Beatriz e D. João I de Castela, com muitas outras praças algarvias, mas que não deixou de ser um risco enfrentado, dada a desproporção, à partida, das forças em contenda. Os procuradores de Loulé marcaram posição em diversos atos públicos, conforme o atestam as atas de vereação da época, aliás, as mais antigas atas municipais portuguesas conhecidas (desde 1378), e que, por isso mesmo, representam um dos maiores símbolos do património histórico de Loulé.

Na fase dos Descobrimentos, Loulé manteve uma importância grande, principalmente no período quatrocentista, como retaguarda de abastecimento de víveres para as praças do Norte de África, para o acolhimento de doentes e feridos dessas guerras (para o que D. Afonso V  terá criado em Loulé o primeiro hospital do Algarve – 1471), e marca também um papel histórico na plantação de cana-de-açúcar que, vinda do Mediterrâneo, aqui terá sido pela primeira vez plantada no início do séc. XV (provavelmente na Horta d’ El-rei), no contexto de um contrato de um contrato de arrendamento celebrado com o mercador genovês João da Palma, em 1404, e daqui levada para o morgado de Quarteira e depois cultivada em abundância na ilha da Madeira e no Brasil (séc. XVI).

Recebeu foral novo do rei D. Manuel I, em 1504, documento a partir do qual se pode fazer o repositório económico local, com as taxas cobradas pelos diversos negócios.

Nos séculos seguintes, o papel histórico de Loulé não terá sido tão notório, mas manteve a sua importância económica regional, sede de um grande concelho e conciliando a vertente agrícola com a do comércio, que ao longo dos séculos se foi afirmando. Neste período, outras povoações do Algarve foram ganhando importância, especialmente as situadas no litoral, como Faro, Lagos e Tavira, depois também Portimão e Albufeira, enquanto Loulé e Silves, mais interiores, perderam protagonismo.

Do séc. XIX diremos que a economia louletana foi aprofundando a atividade comercial, criando um importante núcleo social burguês que foi dando conta da sua existência desde o período da implantação do liberalismo e guerra civil dos Liberais contra Absolutistas (1828-34) e o período subsequente, em que a sua posição marcadamente liberal sofreu os ataques das guerrilhas miguelistas do Remexido, acoitadas no interior serrano do concelho, onde se destaca o massacre de 24 de julho de 1833, com a morte de dezenas de pessoas às mãos dos guerrilheiros. Em 1873 foi aberta a Av. Marçal Pacheco, em direção à estrada que liga à capital algarvia, substituindo o caminho tradicional para sul que saía da porta de Faro.

Do séc. XX gostaria de destacar em Loulé o dinamismo urbanístico, com a abertura da Avenida José da Costa Mealha, da década de 1920, pontuada de edifícios marcantes, alguns dos quais já desaparecidos, destacando o Cineteatro Louletano do final dessa década. Depois, na segunda metade deste século, o incremento do turismo trouxe nova dinâmica desenvolvimentista, não propriamente na sede do concelho, mas na faixa litoral do mesmo (Quarteira, Vilamoura, Vale do Lobo, Quinta do Lago, etc.) que se refletiram também na sede do concelho.

Loulé manteve durante estes séculos a categoria de vila, uma importante vila, que a fazia ser considerada a “sexta cidade do Algarve” até 1988, data em que passou a ser cidade, com as respetivas cinco torres nas suas armas.

BIBLIOGRAFIA

ACTAS das VEREAÇÕES de LOULÉ – Vol. I – Câmara Municipal de Loulé – 1984

HERCULANO, Alexandre“Portugaliae Monumenta Historica, Leges et Consuetudines” – Vol. I – Lisboa, 1856 – pág. 706-708 – transcrito de: ANTT – Doações de D. Afonso III – Livro I – fl. 82v-83v (Foral de Silves, Faro, Loulé e Tavira);

HERCULANO, Alexandre“Portugaliae Monumenta Historica, Leges et Consuetudines” – Vol I – Lisboa, 1856, pág. 715-716 – transcrito de: ANTT – Doações de D. Afonso III – Livro I – fl. 97v (Foral dos Mouros Forros).

MARTINS, Isilda Maria Pires – “O Foral de Loulé de 1266” – Câmara Municipal de Loulé – 1989

OLIVEIRA, Luís Filipe – “A Conquista, o padroeiro e os priores de Loulé” – Univ. Algarve /IEM

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21. Castelo e muralhas de Loulé

Pensamos que o castelo e muralhas de Loulé terão sido construídos no período muçulmano, formando um perímetro de torres e muros que defendiam o burgo das ameaças externas, nomeadamente a partir do final do século XII, quando se começaram a concretizar as ameaças das forças cristãs portuguesas e castelhanas contra a região sul e sudoeste da península, e que viria a perpetuar o nome de Al Garb (que em árabe significa o ocidente). Aliás, em relação à palavra castelo, tradicionalmente a população de Loulé chama de “castelo” ao conjunto principal de torres e muralhas que se situam a NW do centro histórico, embora isso também não seja consensual.

Nesse espaço, intramuros, se situava também a alcaidaria da vila, zona habitacional e militar, onde residia o alcaide, e que foi ao longo dos séculos visitada por alguns reis. Loulé tinha uma cintura de muralhas defensivas que, em alguns pontos mais vulneráveis, e junto às suas portas, eram reforçadas por torres e torreões de diversos tipos, como se pode confirmar nas ainda existentes ou nalguns alicerces visíveis (ex. na Capela de Nª Senhora da Conceição e entrada para o pátio da alcaidaria).

Conhecemos hoje quase perfeitamente o perímetro das muralhas que delimitavam a primitiva povoação, o seu atual centro histórico, formando um polígono irregular de quatro lados, entre a Praça da República, a Av. Marçal Pacheco, a Rua Engº Duarte Pacheco (antiga Rua da Corredoura) e a antiga Horta d’El-Rei. Este perímetro tem uma dimensão significativa para a época, de cerca 940 m, circundando uma área de cerca de 5 ha, que formavam o núcleo central da vila, ao qual se foram acrescentando, ao longo do tempo outros bairros exteriores – mouraria, judiaria, arrabalde.

O centro religioso da povoação era a igreja matriz, dedicada depois da reconquista (1249) a S. Clemente1, e o seu espaço envolvente, onde no seu adro se situava o primitivo cemitério de Loulé, e onde hoje se situa o jardim dos Amuados. O templo teria sido uma mesquita muçulmana, no espaço da qual se reconstruiu a igreja, e do qual restará ainda a torre sineira, antiga almádena ou minarete, onde o almuadem chamava os crentes às orações diárias.  A igreja foi uma das primeiras a ser construídas na região depois da reconquista cristã, da época da sé de Silves (primeira catedral do Algarve) e das de Santa Maria de Faro (depois Sé de Faro) e de Santa Maria do castelo em Tavira. A importância desta igreja no período medieval fica demonstrada por integrar a vintena de instituições eclesiásticas que participaram na petição ao Papa Nicolau IV, em 1288, para a criação de um Estudo Geral, a expensas dessas igrejas, que serviu de base à criação, por D. Dinis, da atual Universidade de Coimbra.

Na mesma época, e extramuros, foi construído o Convento da Graça, inicialmente como casa da Ordem dos Frades Menores (Franciscanos observantes), cujas ruínas da sua igreja foram recentemente requalificadas e que são também dignas de uma visita. Ao longo dos séculos foram sendo construídos outros conventos na vila, masculinos e femininos, que funcionaram até 1834, data da sua extinção pelo Liberalismo – Convento dos Grilos (Hospital /Misericórdia), Convento do Espírito Santo (feminino), e de Santo António dos Olivais (Capuchos).

As muralhas da cidade foram, segundo o modelo árabe e medieval, construídas em pedra ou em taipa, maioritariamente nesta última, consoante as localizações e a altura necessária. Ou até nos dois materiais em simultâneo, com a base em pedra e a parte cimeira em taipa. É isso que ainda hoje se vê ao longo do perímetro detetável de pano de muralha ou das torres. Podemos confirmar os dois tipos ainda de pé.

Ao longo da muralha abriam-se diversas portas para o exterior, que tomaram o nome dos bairros ou estradas para onde apontavam – de Faro, da Vila, do Concelho, de Portugal, de Silves, Nova. A sua localização exata não está hoje assinalada na maior parte delas, e a sua própria designação também não é consensual2.

Em 1422, D. Pedro de Meneses, mandou recuperar a muralha da vila, que lhe daria a imponência de todo o seu perímetro. 

Depois, ao longo dos séculos, as muralhas de Loulé foram sendo vítimas das intempéries e tremores de terra, destruídas ou alteradas e, em face da decrescente necessidade da sua existência, não só pela maior paz interna e externa, mas também pela introdução da artilharia, que as tornava obsoletas, foram perdendo a sua importância, e deixadas ao abandono. Já em 1617-18 a visita inspetiva de Alexandre Massaii dava conta de que a maior parte dos muros de taipa da muralha se encontravam danificados e/ou caídos3.

Grandes extensões de muralha passaram a ser incorporadas nas construções que se foram anexando, ou pior, foram destruídas, para dar lugar a novos arruamentos ou construções, como é o caso mais notório do Mercado Municipal, joia neoárabe do início do séc. XX, mas para cuja construção foi derrubado um significativo troço da cerca medieval. Capelas, solares e casas particulares foram ganhando prioridade em relação à cerca.

Aquilo que resta da estrutura defensiva de Loulé está garantida como Monumento Nacional desde 28 de junho de 1924.

Passamos então a uma descrição/passeio virtual das muralhas de Loulé, começando na zona que como vimos é conhecida por castelo, no sentido contrário ao dos ponteiros do relógio, antes de fazermos o percurso pedestre:

Começamos na rua da Barbacã, (nome que designa a cerca exterior à muralha, que depois desapareceu), onde vemos uma torre albarrã (separada da muralha), em alvenaria, depois outra torre adossada ao exterior da muralha, e uma terceira, de grandes dimensões, sobre a muralha. Estas três torres situam-se junto da alcaidaria e ligam-se entre si por um caminho de ronda e escadas para cada uma delas. Foram reparadas nos anos 1940, pelos Monumentos Nacionais, segundo um plano do Ministério do Engº Duarte Pacheco. As ameias superiores não existiam antes disso, como ainda é possível confirmar em fotos antigas.

Seguindo em sentido contrário aos ponteiros do relógio, na zona da antiga Horta d’El-Rei, que ficou mencionada no foral de 1266, destacamos a mais recente fonte das Bicas Velhas, o edifício recentemente estudado e em recuperação, que seria um banho público muçulmano (hamman), e alguns vestígios da muralha nas traseiras de muitas habitações que se foram adossando aos muros ao longo dos séculos, num bairro que inicialmente seria a judiaria da vila. O final deste lado, sob o Jardim dos Amuados, está mais conservado e visível, até à aresta do polígono. Aqui se situavam as portas de Silves e a Nova. (Conforme esteve assinalado num painel de azulejos do Restaurante “A Muralha”).

Já na Rua do Engº Duarte Pacheco destacamos um torreão em taipa, conhecido como Torre da Vela, que servia de atalaia permanente para os ataques mouros vindos da costa ou na costa, pois fazia contacto visual com outra torre em Quarteira que emitia sinais de fumo em caso de ameaça, quando “havia mouro na costa”. Pelo interior da muralha há ainda visitável, um caminho de ronda que ligava outras torres, a do meio, desaparecida e outra, antes da rua 1º de dezembro ainda visível. A meio abria-se a “porta de Faro”, que ligava à estrada para Faro, que foi mudada quando no séc. XVII se construiu a capela de Nª Srª do Pilar e o solar adjacente.

 Após nova inversão de cerca de 90º, a linha de muralha passava entre a atual Av. Marçal Pacheco e a Rua 1º de Dezembro, indo para norte até ao antigo Largo do Carmo, onde existia outra porta importante, a “porta da vila (ou do sol)”, onde depois foi construída outra capela – Nossa Senhora do Carmo, que foi destruída em 1873, talvez para a abertura da Av. Marçal Pacheco. Teria também sido destruída parte da muralha, conhecendo-se hoje a viragem para oeste (nuns alicerces que estão no subsolo de uma antiga oficina de bicicletas e atual parafarmácia), a que se juntou depois também a destruição de outra parte por causa da construção do Mercado Municipal, em 1907-08.

A última face do polígono seguia na continuidade da atual Praça da República, na linha de fachada das casas alinhadas com a atual Câmara Municipal e onde se abria uma pequena porta (celebrada com o nome de Rua do Postigo – antigo nome da Rua 9 de Abril), e se alinhava um significativo pano de muralha com pelo menos dois torreões. O primeiro deles, talvez a base onde agora está o relógio, tinha junto a si outra porta principal, (a do “Concelho”). No final desta linha abria-se a “porta de Portugal (ou porta da Vila)” que, embora aberta num conjunto provavelmente em cotovelo, se situava em frente à atual Rua de Portugal (da antiga estrada para Portugal) e sobre a qual se erigiu também outra capela, dedicada a N. Srª da Conceição (como se pode ver no alicerce visível no solo desta capela). Aí junto havia também outra torre, provavelmente onde no início do séc. XX consta que ainda existia um moinho de vento sobre ela.

Notas:

  1. S. Clemente – terceiro papa de Roma, de finais do séc. I, desconhecendo-se a razão desta invocação, sendo pouco plausível que, como se pensou durante muito tempo, tenha sido porque no seu dia comemorativo se teria conquistado a praça militar – 23 de novembro.
  2. M. Fátima Botão e Isilda P. Martins – obras citadas.
  3. Alexandre Massaii – obra citada

Bibliografia básica:

BOTÃO, Maria de Fátima – “A construção de uma identidade urbana no Algarve medieval – O caso de Loulé” – Ed. Caleidoscópio – 2009

– MARTINS, Isilda Pires – “O Castelo de Loulé” – Ed. CML – 1984

– MASSAI; Alexandre – “Descripção do Reino do Algarve …” – Alexandre Massai – 1617-18. Publicado em 1621. Em Lívio da Costa Guedes “Aspectos do Reino do Algarve nos séc. XVII e XVIII. A Descrição de Alexandre Massaii”. Arquivo Histórico Militar. Separata do Bol.do Arquivo Histórico Militar – 1986. Impresso em 1988.

MARTINS, Isilda Pires e MATOS, José Luís de – “As Muralhas de Loulé – Ed. CML – 1990;

OLIVEIRA, F. X. Ataíde – “Monografia do Concelho de Loulé” – Ed. Algarve em Foco – 1986

SIMÕES, João Miguel – “História Económica, Social e Urbana de Loulé” – Caderno do Arquivo Municipal de Loulé – 2012

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