38B – Os Titulares do Morgado de Quarteira

Sobre a família dos Barreto, titulares do Morgado de Quarteira ao longo de muitos séculos, vamos apresentar aqui um esboço incompleto da sua sequência genealógica, em que os primeiros nomes ainda não estão relacionados com Quarteira:

Gomes Mendes Barreto – Mestre da Ordem do Templo – regista-se o seu nome em 1211-12 na cúria de D. Sancho I; é a primeira figura conhecida da família. Foi pai de

Fernão Gomes Barreto – casou com Sancha Pais de Alvarenga – há registos da sua presença na cúria de D. Afonso III em 1248 e 1254; irmão de

João Gomes Barreto – esteve na cúria de D. Afonso III entre 1249 e 1253, tendo participado na conquista do Algarve;

Gonçalo Nunes Barreto I – casou com D. Brites Fernandes Pimentel e recebeu em dote o senhorio de Cernache (Coimbra), com o qual engrandeceu o património familiar; pai de

– Diogo Gonçalves Barreto – casou com D. Teresa Martins, e foi nomeado Fronteiro-Mor do Algarve, tendo sido o primeiro dos Barreto que se fixou no Algarve; foi exilado por D. Fernando I por acompanhar o Infante D. João de Castro, tendo os seus bens passado para o seu filho, por volta de 1376.

Com a figura seguinte começa a ser conhecida no Algarve a família dos Barreto de Quarteira, ou Morgados de Quarteira:

GONÇALO NUNES BARRETO II (c. 1350- c. 1431)filho de Diogo Gonçalves Barreto, e que surge nas atas de vereação de Loulé como aqui residente; era casado com D. Inês de Menezes, filha ilegítima de D. Pedro de Menezes, que foi senhor de Loulé, e cujo neto D. Henrique de Menezes, foi o primeiro Conde de Loulé (1471); foi partidário do Mestre de Avis na crise de 1383-85, que o nomeou Fronteiro-Mor do Algarve; Juiz geral em Loulé, em 1408; em 1412 o rei atribui-lhe o rendoso reguengo de Quarteira, que ele vem a adquirir definitivamente em 1413, por troca com o senhorio de Cernache (Coimbra) que entrega ao rei; fundador do Morgado de Quarteira, em data incerta; esteve na conquista de Ceuta (1415), onde ficou algum tempo; lá lhe morreu o seu filho Fernão Barreto; nos últimos anos de sua vida foi membro do Conselho do Rei e também assinou o tratado de paz com Castela de 1431; terá falecido pouco depois, septuagenário. Sucedeu-lhe na Casa o seu neto

2º – GONÇALO NUNES BARRETO III (morgado entre 1431 e 1475)c.c. D. Isabel Pereira e foi Comendador–Mor da Ordem de Santiago; foi Alcaide-Mor do castelo de Faro e Fronteiro-Mor do Algarve, com D. Duarte; foi apoiante do Infante D. Pedro, após a morte de D. Duarte, mas contra ele em Alfarrobeira (1449); esteve sempre no Algarve, onde teve muitos conflitos com outras entidades locais e regionais, que lhe valeram múltiplas queixas em Cortes. Construiu o solar cujas ruínas estão agora musealizadas sobre os antigos banhos islâmicos de Loulé, com autorização real de D. Afonso V. Pai de

NUNO BARRETO (morgado entre 1475 e 1494) – c.c. D. Leonor de Mello; foi-lhe dado o privilégio de socorrer Ceuta e os que lá viviam, com D. Afonso V; tinha direitos sobre o porto de Farrobilhas, muito importante para Loulé. Um seu irmão, Fernão Pereira Barreto, fundou o Morgado do Freixo Verde (Quinta do Freixo). Pai de

RUI BARRETO I (morgado entre 1494 e 1521) – c.c. D. Branca de Vilhena; Alcaide-Mor de Faro (1498); Fronteiro–Mor do Algarve; Vedor da Fazenda do Algarve (1513); próximo do rei D. Manuel I, que lhe confirmou os privilégios do socorro a Ceuta e outras mercês; construção e povoação e torre em Quarteira; socorro ao cerco de Arzila (1508); Capitão de Azamor; muito lutou para receber um título nobiliárquico, mas nunca conseguiu. Pai de

5º – NUNO RODRIGUES BARRETO (morgado entre 1521 e 1557 – c.c. D. Leonor de Millá (ou Milão) – Alcaide-Mor de Faro, onde residia; Fronteiro-mor do Algarve; pai da famosa D. Francisca de Aragão1; fundador do primeiro Convento de Santo António dos Capuchos, em Loulé, no ano de 1546, que viria a ser fortemente danificado em 1587, tendo sido mais tarde, em 1692, construído um novo convento em lugar mais alto da mesma cerca (o que se conhece hoje); era irmão de

6º FRANCISCO BARRETO, grande figura de militar, que teve uma notável carreira na Ásia portuguesa, e que entre 1563 e 1567 teve também um importante papel na casa de Quarteira, como tutor do seu sobrinho Rui Nunes Barreto, até que foi nomeado para general das galés de Portugal, e depois ainda protagonista de outros grandes feitos militares até à sua morte (1573); tio de

7º – RUI NUNES BARRETO – morgado de 1557 a 1574 – c.c. D. Brites de Vilhena; comandante da armada de guarda-costa do Algarve; Alcaide-Mor de Faro; Vedor da Fazenda do Algarve; Capitão –Mor de Ordenanças do Algarve; a sua casa foi visitada pelo rei D. Sebastião em janeiro de 1573, no seu périplo pelo Alentejo e Algarve (ver post 25B). Pai de

8º NUNO RODRIGUES BARRETO II – morgado de 1574 a 1602 – durante o seu mandato deu-se o ataque do conde de Essex (inglês) a Faro, em 1596, em que ficou bastante mal visto, por não ter conseguido evitá-lo. Foi substituído pelo seu irmão 

9º FRANCISCO BARRETO II – morgado a partir de 1602.

10º FRANCISCO de BORJA e ARAGÃO (filho de D. Francisca de Aragão – n. 1581- m- 1656) – Príncipe de Esquilache; foi Vice-Rei do Peru, onde fundou a Universidade de S. Marcos, em Lima. Poeta.

11º – ANTÓNIO de MENDOÇA (m. em 1675) – Filho de Nuno de Mendonça, 1º Conde de Vale de Reis; Arcebispo de Lisboa, entre 1670 e 1675; foi Morgado de Quarteira por mercê de D. João IV.

12º – FRANCISCO BARRETO DE MENEZES (n.1616 – m. 1688) – nasceu no Peru; título entregue pelo Infante Regente D. Pedro; venceu no Brasil a 2ª batalha dos Guararapes (1649), contra os Holandeses; restaurador de Pernambuco, Governador-Geral do Brasil e elevado a Conde do Rio Grande, em 1678. Pai de

13º – ANTÓNIA MARIA FRANCISCA BARRETO (séc. XVII) – c.c. Lopo Furtado de Mendonça; Condessa de Rio Grande;

14º AGOSTINHO DOMINGOS DE MENDONÇA ROLIM DE MOURA BARRETO (n. 1780 – m. 1824)e 8º Conde de Vale de Reis; 1º Marquês de Loulé; foi comandante da Legião Lusitana, ao serviço de Napoleão; membro da Maçonaria.

15º NUNO JOSÉ SEVERO DE MENDONÇA ROLIM DE MOURA BARRETO (1804-1875) –  2º Marquês de Loulé e 1º Duque de Loulé; 4º Conde da Azambuja; par do Reino; casou com a Infanta D. Ana de Jesus Maria de Bragança, filha de D. João VI e de D. Carlota Joaquina. Grande figura política do Liberalismo do séc. XIX. Último morgado de Quarteira. Depois da sua morte a Quinta de Quarteira passou em partilhas para o 5º Conde da Azambuja, ficando nesta família até 1929.

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1 – Famosa dama da corte de D. João III, e uma das musas de Luís de Camões.

Bibliografia

– Carta de Povoamento de Quarteira – 1297 – Chancelaria de D. Dinis – ANTT

– MARTINS, Isilda – O Foral de Loulé de 1266 – Ed. C M Loulé – 1989

– MORENO, Humberto B. – “Conflitos entre os Barreto e os seus Opositores no séc. XV” – Revista da Fac. Letras do Porto (online);

– VILA-SANTA, Nuno – “Do Algarve, a Marrocos e à Índia – Francisco Barreto e a Casa de Quarteira” – Arq. Municipal – C M Loulé – 2020.

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38A – O Morgado de Quarteira

Dado o interesse local, para Quarteira e Loulé, deste tema, propus-me fazer aqui um esboço acerca da evolução histórica deste assinalável espaço deste concelho. Não é um trabalho acabado, mas posso dar aqui algumas informações ao grande público ou pistas para futuras investigações.

A primeira vez que aparece uma referência ao território que viria a ser conhecido como Morgado de Quarteira foi no Foral de Loulé, de 1266, em que o rei D. Afonso III reserva para si, e todos os seus sucessores, todas as herdades de Quarteira, para seu reguengo, bem como todos os moinhos de Quarteira, construídos e por construir, e os pisões, ou azenhas se as fizerem. Tornava-se assim uma propriedade do rei (significado da palavra reguengo), e assim fica por mais um século e meio.

O rei seguinte, D. Dinis, para rentabilizar a terra, ainda celebrou contratos de arrendamento de parcelas com vários casais e homens solteiros para nelas trabalharem.

Para povoar o lugar, fora do reguengo, em 1297, outorgou uma carta de povoamento a Martim Mecham e a mais cinquenta homens (que se presumiria que trouxessem as suas famílias) para o seu lugar de Quarteira, mas a tentativa parece não ter dado frutos, porquanto em reinados bastante posteriores, nomeadamente de D. Afonso V (em meados do século XV) ainda se faziam tentativas de povoamento do lugar.

Entretanto, o reguengo continuaria a sua produção, talvez sem o lucro esperado, porque no princípio do século XV (em 1412), o rei arrendou a terra a um fidalgo que estava fixado em Loulé, Gonçalo Nunes Barreto, o qual no ano seguinte (1413) o viria a adquirir definitivamente, por troca com o rei D. João I pelo seu senhorio em Cernache (Coimbra).

A partir de 1413 na família dos Barreto, e instituído em morgado logo no século XV, com a inerente obrigação de indivisibilidade e preservação, foi passando por sucessivas gerações na família, embora com alguns pontuais interregnos, até aos finais do séc. XIX com essas características.

A componente residencial da quinta, residência habitual da família dos morgados, era o edifício solarengo que hoje funciona como a Estalagem da Cegonha, onde o morgado de então, Rui Nunes Barreto, recebeu com todas as honras e festejos o rei D. Sebastião e a sua comitiva, no seu périplo pelo Alentejo e Algarve, em janeiro de 1573.

A fase final do morgado de Quarteira iniciou-se com a morte de do 1º Duque de Loulé, em 1875, a partir da qual a propriedade ficou em partilhas para o Conde da Azambuja e permaneceu na posse dos seus descendentes até 1929, quando foi adquirida pela Família Júdice Fialho (industrial de conservas do Algarve). Com uma área de cerca 1700 hectares (era então a maior propriedade do Algarve), foi posteriormente adquirida em 1964, por Artur Cupertino de Miranda (Banco Português do Atlântico), pelo valor de 150.000 contos, que criou a firma Lusotur, e no seu espaço se desenvolveu o atual empreendimento turístico de Vilamoura, iniciado na segunda metade dos anos 1960.

(No próximo artigo identificarei os Morgados ao longo do tempo)

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37 – As Lendas das Mouras Encantadas do Algarve

Uma das tradições mais arreigadas na população do sul de Portugal, e nomeadamente do Algarve, é a das Mouras Encantadas. Grande parte das povoações desta região têm a sua lenda relacionada com este tema.

Trata-se de narrativas fictícias, que foram passando oralmente de geração em geração, não se sabe exatamente desde quando. Embora existam várias teses que tentam explicar a origem e o contexto do aparecimento deste tipo de narrativas, entroncando-os mesmo com outras culturas antigas, até de fora do contexto peninsular, penso que este caso específico da tradição meridional de Portugal provavelmente virá desde o período medieval, contemporâneo ou próximo da época em que se situam. Ao terem sido passadas a escrito e publicadas nos finais do séc. XIX, estão devidamente salvaguardadas na sua preservação.

Os relatos são de diferentes tipos, mas há um modelo que se pode considerar mais comum, e que se situa no período muçulmano na Península Ibérica, ou mais concretamente na sua fase final, a da reconquista cristã, pondo em ação a figura de reis mouros e alguma (ou algumas) filha, à qual são geralmente referidos atributos de grande beleza física – alvura de pele, olhos azuis e longos cabelos em ondeadas madeixas louras. Perante a ameaça da derrota militar, com a consequente morte ou cativeiro, às mãos dos cristãos, os reis mouros lançavam sobre as suas filhas um poderoso feitiço (encantamento), que as levava a ficarem inanimadas por muitos séculos num espaço profundo, muitas vezes um poço, uma fonte, ou uma gruta da povoação. Daí saíam em ocasiões especiais, apresentando-se em toda a sua beleza e juventude, acompanhadas por um qualquer objeto de ouro (pente, tesoura), e exercendo uma terrível sedução sobre quem as visse, normalmente os jovens rapazes que, só por terem contactado com elas, podiam incorrer na perdição de suas almas.

Outras narrativas não referem como se deu o encantamento, nem quem o realizou, apenas indicam o local em que aparecem, mas quase sempre no contexto que acima descrevo.

As ocasiões mais comuns para aparecerem no mundo dos vivos era no início do verão (muitas vezes pelo S. João), e à meia-noite, o que lhe elevava ainda mais a sua aura de mistério. Muitas vezes o feitiço lançado era reversível (desencantamento), se fossem realizadas por algum ser humano determinadas ações previstas, que até poderiam ser recompensadas por um tesouro, mas, enquanto não fosse possível a concretização dessas ações, o feitiço continuava, o que justifica a continuação destas tradições ao longo dos séculos…

Claro que, como disse, estas descrições são puramente ficcionais, portanto, não são suportadas pelos factos históricos e documentos que as comprovem. Não devem, portanto, ser interpretadas à letra, em busca de acontecimentos e datas concretos. Mas este tipo de narrativas poderia ser importante pelo contexto em que são apresentadas. Por algum motivo, surgem essencialmente no Sul e menos em zonas não relacionadas com a presença muçulmana, e assim refletem, no contexto desta presença, usos e costumes da época, as relações familiares, as dificuldades de relacionamento entre pessoas de religiões diferentes, a condição humana dos intervenientes, o medo dos fenómenos metafísicos, etc.

O interesse cultural deste tema torna-o apetecível para o grande público, que quer conhecer as lendas e eventualmente relacioná-las com algum espaço concreto que conheça. Lembro-me na minha infância um jornal matutino de Lisboa (“O Século” ou o “Diário de Notícias”, já não posso precisar) ter publicado durante muito tempo, diariamente, muitas destas lendas, e que também podem ser lidas nas obras que cito na Bibliografia, das quais destaco a reedição da coletânea recolhida por F. X. Ataíde d’Oliveira nos finais do século XIX, grande conhecedor da história e tradição algarvias, retratadas também nas várias monografias que escreveu sobre localidades desta região.

A importância cultural deste tema também se comprova pelo facto de existirem teses universitárias de mestrados/doutoramentos sobre o mesmo.

A título de exemplo, cito aqui algumas das lendas mais conhecidas do Algarve: A Moura Cássima (Loulé); as Mouras de Salir, Alte, Querença e Ameixial (Loulé); As Mouras de Paderne; a Moura de Faro; A Moura de Olhão; A Moura do Castelo da Tavira; as Moura de Alcoutim, de Vaqueiros e de Giões; A Moura de Silves; a Mourinha de Bensafrim; etc.

Há também casos no masculino: Os Mouros de Albufeira, de Castro Marim, de Alportel; etc.

Espero com este pequeno texto ter feito relembrar histórias de infância aos mais velhos, e suscitado alguma curiosidade nos mais novos sobre este tema tão interessante da tradição cultural algarvia.

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Bibliografia:

MARTINS, Ana Cristina – “Mouras Encantadas e outras Lendas” – Arandis Editora

MEIRELES, Maria José – “Lendas de Mouras Encantadas” – Campo de Letras – 2006

OLIVEIRA, Francisco Xavier d’Ataíde – “As Mouras Encantadas e os Encantamentos do Algarve” – Ed. Notícias de Loulé – 1996 – reedição de obra publicada em 1898.

OLIVEIRA, Francisco Xavier d’Ataíde – Diversas Monografias de localidades algarvias – editadas pela Algarve em Foco – anos 1980.