46 – José da Costa Mealha

Um dos nomes mais conhecidos dos louletanos é o de José da Costa Mealha, que identifica a maior artéria desta cidade, localmente designada por “avenida”.

Mas talvez a figura e personalidade desta ilustre figura de Loulé não seja suficientemente conhecida das gerações atuais, pelo que me proponho aqui deixar algumas indicações sobre ela, a partir essencialmente dos dos textos de Porfírio Augusto Lopes e Octávio A. Fernandes, publicados no jornal “A Voz de Loulé” em 2.11.1924:

Nasceu em Loulé em 1.Dez.1851 e faleceu também em Loulé, em 4. Nov.1918.

Foi um grande comerciante e exportador, na área dos frutos secos algarvios (figo e amêndoa), alfarroba, obras de palma, esparto e cortiça. Foi também agente bancário e de seguros.

Teve uma notável participação na vida política local, tendo pertencido ao Partido Progressista Dissidente, e ocupou os lugares de Presidente da Câmara Municipal (1905-1909) e igualmente de Administrador do Concelho (entre 1906 e 1908)*, e juiz substituto. Presidiu também à direção do Hospital da Misericórdia.

Segundo aqueles autores, era reconhecido como um homem afável, de riso acolhedor e franco, com olhar vivo e penetrante, ditos mordazes e humorísticos, com porte elegante e aristocrático, sem perder a popularidade característica.

Trabalhou nos seus negócios, muito para si, mas também para os outros. Concidadão de espírito altruísta e humanitário, que muito fez pelos pobres da sua terra, e se manifestou, por exemplo, nas obras e instrumentos que doou ao hospital (sala de operações, instrumentos cirúrgicos, casa para alienados).

Não tendo qualquer formação superior, conheceu a fundo a política, o comércio e a indústria. Muito falador, dizem que sustentava uma conversa durante cinco ou seis horas sem que os assistentes dissessem alguma coisa. Numa perspetiva de moral burguesa então em voga na Europa, também dele se dizia que odiava os preguiçosos e amava os trabalhadores. Pessoa que trabalhasse e olhasse pela sua vida a sério, contava com ele como um amigo e auxiliar.

Depois de Marçal Pacheco foi o primeiro que ardentemente se esforçou pelo progresso e engrandecimento de Loulé, onde nasceu. Foi o mais importante comerciante em Loulé, que ajudou, com os seus conselhos, exemplos, e préstimos financeiros, muitas outras casas comerciais do concelho. Deu instrução comercial prática a muitos camponeses, que vieram a tornar-se patrões, e que diziam dele que tinha sido o seu mestre.

Entre as melhorias na então vila de Loulé, e que tiveram a sua participação direta ou única, podemos apresentar as seguintes:

– A criação no hospital da Misericórdia de uma sala de operações, e de uma dependência para internato dos alienados, tudo pago com dinheiro do seu bolso;

– Foi também no seu tempo de Administrador do Concelho que se construiu o novo mercado municipal, inaugurado em 1908, e que hoje é um dos edifícios mais emblemáticos da cidade, num estilo revivalista neoárabe;

– Doou grandes quantias para obras de caridade, nomeadamente compra de farinha e apoio aos mais pobres;

– Idealizou a grandiosa avenida, no seu tempo, à qual foi atribuído o seu nome, ligando a então vila ao bairro próximo da Campina de Cima, a nascente. Para a sua concretização, pagou em 1918, no final da sua vida, a memória descritiva e a planta, e ainda um subsídio de 15.000$00. As expropriações começaram nesse mesmo ano, com as obras a avançar em 1920. No entanto, a sua construção não foi linear e rápida: a partir de 1923, as obras tiveram alguns percalços de continuidade, com paragens e avanços, tendo ainda a sua viúva, D. Maria Francisca Mendonça Mealha avançado com novos contributos, nomeadamente para a construção da ponte sobre a ribeiro do Cadoiço, que atravessava a avenida, sensivelmente a meio, correndo de norte para sul. Em retribuição, a CML prometeu dar o nome da senhora a uma das transversais, mas houve problemas pessoais e políticos, que travaram essa realização. Também o busto do benemérito esteve muito tempo para ser colocado (estando atualmente no topo nascente da artéria, virado para o centro da cidade). Entre trabalhos e paragens, em 1958 ainda se procedia ao seu calcetamento e pavimentação.

– Foi participante ativo na luta não conseguida pela aproximação a Loulé da linha do caminho de ferro e na implantação do novo modelo de Carnaval civilizado que haveria de ser uma bandeira de Loulé.

José da Costa Mealha faleceu em 4-11-1918, com 66 anos, no contexto da Pneumónica, ou Gripe Espanhola, que assolou a Europa entre 1918-19.

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* O cargo de Presidente da Câmara Municipal tinha na época funções diferentes da atualidade. O Administrador de Concelho é que tinha umas funções políticas que se poderiam comparar com os atuais Presidentes da Câmara Municipal.

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45 – Particularidades do espaço sagrado no Baixo Alentejo interior

Volto hoje a abordar um tema que já tratei (artigo número 29, em Agosto de 2022), mais especificamente sobre a freguesia de Santa Cruz – Almodôvar, mas que, não tendo recebido nenhuma achega explicativa, me apraz tratá-lo novamente com algumas considerações novas.

Desde sempre que as diferentes civilizações que se têm sucedido na orla mediterrânica (e não só, mas para o caso situamos esta reflexão no âmbito deste espaço), têm claramente identificado em cada uma das suas principais povoações o seu espaço sagrado, em relação ao espaço profano em que vivem e trabalham.

E esse espaço sagrado é geralmente mantido, ao longo do devir histórico, pelos sucessivos povos dominantes, por mais diferentes que sejam entre si.

Na Península Ibérica, e no território histórico de Portugal, identificados os diversos povos que por cá passaram, principalmente no Sul (Fenícios, Gregos, Cartagineses, Romanos, Germanos, Árabes, ou depois Cristãos), todos eles garantiram nas suas principais povoações o seu espaço sagrado, central e dominante, onde edificaram os principais templos, mesquitas e/ou igrejas, alterando ou adaptando as estruturas preexistentes ao culto de cada um. Portanto, temos em comum o espaço de implantação dos edifícios de culto, e muitas vezes o mesmo edifício que foi adaptado a religiões diferentes. A profundidade desta adaptação decorria muitas vezes da ferocidade da conquista e das diferenças essenciais das religiões em substituição. Nas povoações mais antigas do sul de Portugal, é comum encontrar elementos da antigas mesquitas na base das igrejas medievais, e no seu subsolo, elementos romanos de iniciais construções religiosas.

Em simultâneo com estas substituições no espaço sagrado, também assistimos a mudanças no espaço profano central: cada povo que se torna dominante tende a expulsar as elites do anterior da zona central das cidades, e relegá-las para a periferia, onde se inserem em bairros étnicos (assim nascem na idade média as mourarias e judiarias, por exemplo).

Por esta ordem de ideias, é tradição nas povoações cristãs, encontrar as suas principais igrejas no centro local, a que se associava historicamente o cemitério (o campo santo), também ele integrante do espaço sagrado de cada povoado. Até ao séc. XIX, o local habitual de enterramento dos fiéis cristãos era nas igrejas ou nos adros das mesmas. Só nos meados desse século, por motivos de saúde pública, é que pelo governo de Costa Cabral (decreto de 28 de setembro de 1844), se proibiu o enterramento nestas circunstâncias, e impondo os cemitérios longe das igrejas e da povoações, conhecendo-se as reações que a decisão provocou, servindo de rastilho a um importante levantamento popular no norte do país – a Revolta da Maria da Fonte, em 1846.

Apesar desta reação, ao longo do tempo foi-se interiorizando a justiça da decisão, e os cemitérios passaram mesmo a localizar-se na periferia das povoações, o que não quer dizer que hoje, face ao crescimento urbanístico, muitos deles não estejam novamente integrados na paisagem urbana.

Mas neste contexto, gostaria de deixar aqui aos meus leitores uma nota de reflexão sobre a localização das igrejas e cemitérios, ainda nos nossos dias, em algumas aldeias e vilas do Baixo Alentejo interior: ao contrário da generalidade das povoações do resto do país, ou mesmo do Alentejo, ali é frequente vermos igrejas e cemitérios juntos e longe do centro das localidades. E o longe pode ser representado por várias centenas de metros, ou mesmo alguns quilómetros. Este afastamento em bloco de igrejas e cemitérios, portanto, não tem nada a ver com a legislação de Costa Cabral, que se referia só a estes últimos, historicamente é anterior a isso mesmo, é a delimitação do espaço sagrado da aldeia, longe da mesma. Se quiserem ir à missa ou a um funeral, os fiéis deslocam-se a uma distância significativa das suas casas, para assistir a qualquer destas formas de culto cristão.

Para concretizar esta particularidade regional, identifico, a título de exemplo, algumas aldeias ou vilas dos concelhos de Almodôvar, Mértola, Castro Verde, Serpa, onde isto se verifica: S. Pedro de Sólis, S. Sebastião dos Carros, S. João dos Caldeireiros e S. Miguel do Pinheiro (Mértola); Santa Cruz (Almodôvar); S. Bárbara de Padrões (Castro Verde); Vila Nova de S. Bento (Serpa).

Não tenho a chave explicativa ou a origem temporal desta tradição regional, que não se verifica genericamente nas sub-regiões envolventes: o resto do Alentejo, ou mesmo o nordeste algarvio adjacente também foram sujeitos às mesmas, ou semelhantes, orientações e vivências, e não tiveram a mesma solução urbanística.

Mas penso que a explicação não deixará de ser encontrada em argumentos de índole religiosa ou sociológica, entroncando na mentalidade religiosa da população local, produto de uma evolução histórica de vários povos que por ali passaram, e onde se fixou uma atitude específica perante o fenómeno religioso.

Na verdade, o alentejano (e a população do sul, em geral) manifesta, no seu dia-a-dia, uma certa indiferença perante o culto religioso e os respetivos ministros locais. De uma maneira geral, assiste de forma empenhada na igreja às cerimónias sociais e familiares mais relevantes – batismos, casamentos e funerais. Tem uma vivência religiosa pessoal e interior, segue as normas da moral cristã, mas não é, de uma maneira geral, aquilo a que se chama católico praticante. Talvez possamos dizer que a metade feminina da população mais velha será, ainda assim, aquela que mais assume a sua vivência religiosa, assistindo às cerimónias do culto no interior das igrejas.

Por outro lado, os próprios ministros da igreja (párocos locais e bispos), vindos muitas vezes de fora, do norte, onde a vivência religiosa é mais intensa, parecem não compreender esta mentalidade local, não interagindo com os seus fiéis na base da sua vida quotidiana e maneira de ser/pensar. Praticam o seu múnus como se estivessem em território de missão, impondo uma teoria abstrata e longe daquilo que os seus ouvintes conhecem e precisam de ouvir, contribuindo assim também para a indiferença e afastamento da sua comunidade.

Poderá ser por aqui que se normalizou o afastamento do espaço sagrado em relação ao espaço profano (residencial e laboral) destas aldeias?

Como já tem acontecido, não sabendo o porquê, deixo aos meus leitores a possibilidade de refletirem e eventualmente me indicarem alguma justificação de que tenham conhecimento.